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  • Luisa Kanzato

DIÁLOGO DAS ÁREAS VERDES NOS ESPAÇOS URBANOS

Viver em cidades altamente urbanizadas comumente faz com que seus habitantes apreciem ainda mais as áreas verdes disponíveis nesse espaço – não à toa, a natureza é remetida ao aspecto bucólico, que traz qualidade de vida, tranquilidade, etc. De fato, as áreas verdes nos espaços urbanos acompanham diversos benefícios, mas o que muitos não discutem são seus desafios, tanto físicos e biológicos quanto socioeconômicos. Entender suas potencialidades é tão importante quanto compreender os desafios que a acompanham, facilitando entender sua condição, sua distribuição espacial, entre outros aspectos, de uma forma crítica.


Potencialidades e desafios


Tratando-se dos benefícios, temos que a vegetação na área urbana auxilia no controle de temperatura e umidade do ar, uma vez que trazem sombras, liberam vapor de água pela evapotranspiração, e absorvem óxido e dióxido de nitrogênio, além de outros poluentes, que costumam elevar a temperatura. Na imagem a seguir, é possível observar a relação entre a presença de vegetação com a temperatura do local, onde as áreas com maior cobertura vegetal apresentam as menores temperaturas.


Também podemos citar o aumento da permeabilidade do solo, tão importante nas áreas urbanas, e fortemente relacionado à ocorrência de enchentes – sendo válido ressaltar nesse ponto que enchentes e inundações possuem outras causas que explicam o fenômeno, como canalização de rios, falta de gestão de resíduos sólidos, pouco escoamento das águas, etc, sendo a permeabilidade do solo somente uma das variáveis de explicação.

Outra vantagem, e facilmente sentida pelas pessoas, é a promoção de sombra pela vegetação – tanto aqueles que realizam uma caminhada pelas ruas, quanto as pessoas que buscam estacionar seu carro na cidade. Ambos os grupos buscam sombra para se abrigar, sabendo do conforto térmico proporcionado. Além disso, a sombra também reduz a exposição direta do sol com as áreas pavimentadas, diminuindo o desgaste ocasionado pela contração e dilatação desse solo.


Mais além, podemos citar o fato das áreas verdes servirem de corredor ecológico nas cidades, conectando a fauna no ecossistema urbano, e aumentando sua biodiversidade. O paisagismo das vegetações, por sua vez, nos proporciona um bem-estar psicológico, pela quebra da paisagem monótona e de construções retilíneas das cidades com as cores e formas de diferentes espécies arbóreas.


Por fim, e relacionado às questões de mobilidade, a cobertura vegetal linear é responsável por criar ambientes mais seguros e com melhor infraestrutura para caminhada, permitindo inclusive o uso misto dos espaços, como as calçadas. Quando o transporte ativo é valorizado, então, também se gera mais espaços para as áreas verdes.


Os desafios, entretanto, também são diversos. A falta de espaço para realizar uma arborização adequada, por exemplo, traz uma limitação física para o desenvolvimento das raízes em covas pequenas para a plantação de mudas, comprometendo o crescimento de uma planta ou árvore. Além disso, solos muito compactados também dificultam a aeração e infiltração da água, condições importantes para o desenvolvimento de vegetações. A falta de nutrientes em um solo também é fator de risco para as plantas.


O ambiente urbano também é marcado pela presença de fiação elétrica de média e alta tensão, e quando não está protegia e compactada, compromete a vegetação próxima, como as copas de árvores. Além disso, a forte presença dos carros também é um risco às áreas verdes, uma vez que podem causar danos por colisões, atritos e até pelas suas emissões gasosas.


Finalmente, um sério desafio enfrentado pelas cidades é a desigual distribuição de áreas verdes, trazendo consequências físico-biológicas (apontado nos diversos benefícios oferecidos) e socioeconômicas, que será explicado a seguir.

As áreas verdes também podem ser interpretadas como infraestruturas, que oferecem serviços ecossistêmicos e amenidades para a cidade na ordem socioambiental. Quando as áreas urbanas e sua população expandem, aumenta-se também o consumo e a apropriação de tais recursos naturais. Tal circunstância pode acarretar num processo chamado gentrificação verde.


Gentrificação verde


O conceito de gentrificação surge em primeira menção feita pela autora Ruth Glass, que buscou explicar a modificação socioespacial ocorrida nos bairros de Londres, onde inicialmente eram ocupados pela classe trabalhadora, mas que foi seguida da ocupação pelas classes médias (GLASS, 1964). Entretanto, nas literaturas mais recentes, o conceito foi se tornando mais abrangente, compreendendo fenômenos físicos, econômicos, sociais e culturais no processo – a gentrificação verde é um exemplo.


Compreende-se por gentrificação verde o processo contemporâneo de mudança socioeconômica e espacial de locais, em decorrência da presença e instalação de infraestruturas verdes e/ou projetos de melhorias na qualidade ambiental (TORRES et al., 2019). Visto os diversos benefícios que os espaços verdes trazem nos ambientes, a sua existência começou e ser apropriada e vinculada à processos de valorização. Como consequência, observamos uma distribuição espacial de áreas verdes desigual em várias regiões, como na cidade de São Paulo, além da apropriação de áreas com cobertura vegetal por setores que produzem o espaço urbano, como o mercado imobiliário, por exemplo, em busca de aumentar o valor dos empreendimentos.


Ainda, há a ocorrência de situações paradoxais envolvendo justiça ambiental e a promoção de espaços verdes. Projetos construtivos que justificavam a instalação de amenidades verdes na busca de diminuir as injustiças ambientais, por exemplo, muitas vezes acabam levando a expulsão de antigas ocupações locais, sendo incoerente com o objetivo inicial (ANGUELOVSKI, 2015). Notamos, então, que infraestruturas verdes são passíveis de valorizar locais, e serem motor de um processo de gentrificação – sendo a lógica contrária também possível (TORRES et al, 2019).


Trabalhando com um exemplo numérico da cidade de São Paulo, temos que o índice médio de cobertura vegetal da cidade, sem considerar os bolsões de mata ao sul e norte da capital e os parques, é de 11,7%. Dentre os dez distritos mais arborizados na cidade, oito deles estão, ao mesmo tempo, entre os metros quadrados mais caros da cidade, sendo eles: Alto de Pinheiros, Jardim Paulista, Pinheiros, Campo Belo, Itaim Bibi, Moema, Vila Mariana e Consolação (SMSP, 2018). As ruas do Alto de Pinheiros atingem 46% de cobertura verde, em contrapartida ao bairro da Mooca, em que as vias possuem menos de 3%.


Portanto, percebemos como é desafiador reconhecer as problemáticas das áreas verdes nos espaços urbanos. Por mais que ela carregue diversos benefícios, tanto em termos ambientais quanto psicológicos, e mesmo em questões de mobilidade, também há um cenário de disputa dessas infraestruturas verdes, de ordem, inclusive, socioeconômica. É necessário que se observe ambos os lados dessa conjunta, a fim de que todos possam desfrutar dos benefícios das áreas verdes.

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