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  • Paulo Silva

Reduzir a velocidade dos veículos é sinônimo de salvar vidas

No Brasil é quase sagrado mexer com o espaço do carro, se são tomadas medidas de aumentar o espaço de outros modos em detrimento do seu, podemos ter certeza de que muitos motoristas irão reclamar sobre essa mudança. Mesmo quando a ação não é reduzir o seu espaço (que é muito generoso nas cidades, cerca de 60% a 70% do sistema viário é dedicado ao automóvel) e é pensado na segurança de todos (inclusive dos próprios condutores dos veículos motorizados), ela não é bem recebida pela maioria dos que dirigem.


Reduzir a velocidade das vias é algo bem polêmico para qualquer gestor público e isso é muito difícil de ser aceito por diversas razões. Para muitos motoristas, reduzir a sua velocidade é privá-lo de chegar mais rápido no seu destino, outros tem em mente de que velocidade alta não significa colocar vidas em risco e depende da habilidade do condutor.


A formação dos condutores no país apresenta diversas falhas, não é possível que alguém com 18 anos ou qualquer outra idade vá aprender em duas semanas ou menos sobre leis, princípios de mecânica, significados das sinalizações e direção defensiva. Raramente quem está ministrando tem a preocupação de formar um bom condutor, em grande parte dos casos, está ali para fazê-lo passar na prova teórica e nada mais. Com muita sorte podem encontrar um bom professor, preocupado com a maneira de quem irá guiar uma máquina que tem grande potencial de causar graves lesões e até mesmo a morte de alguém.


Apesar da internet estar cada vez mais acessível, a informação ainda não atinge plenamente a população e muitas vezes fica restrita a meios acadêmicos, ou determinadas áreas ou só são divulgadas em momentos específicos. Provavelmente poucos têm conhecimento de que o Brasil, no ano de 2017, ocupou o terceiro lugar no mundo em número de mortes no trânsito, ficando atrás de Índia (1º) e China (2º). Sem dizer os custos de acidentes de trânsito, no período de 2007 a 2018 o valor consumido pelos acidentes foi quase de R$ 1,6 trilhões, tal cifra representa um valor duas vezes do esperado com a reforma da Previdência!


O excesso de velocidade é uma das principais causas de fatalidades no trânsito, reduzir a velocidade dos veículos é uma medida necessária e preventiva para a segurança de todos no trânsito, principalmente os modos ativos.


Muitas cidades pelo mundo vêm adotando medidas de zonas 30, como forma de diminuir as fatalidades nos acidentes de trânsito, entre elas temos Nova Iorque e Paris, por exemplo . No Brasil, capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Curitiba adotaram em diversas regiões da cidade zonas onde a velocidade máxima permitida é de 30 km/h, principalmente em vias do centro e/ou de intenso comércio e fluxo de pedestres.


A velocidade em que ocorre um impacto pode determinar se uma pessoa que o recebe sobreviverá ou não. Um dos motivos da adoção das zonas 30 é justamente a baixa probabilidade de uma pessoa, ao ser atingida por um veículo motorizado nessa velocidade, vir a óbito. No gráfico abaixo, adaptado do Relatório em velocidade e usuários vulneráveis no Brasil, elaborado pela Fundácion MAPFRE, vemos como é muito diferente a chance de sobrevivência ao ser atingido a 50 km/h e 40 km/h.


Fonte: Fundácion MAPFRE, 2018 – Relatório em velocidade e usuários vulneráveis no Brasil. Adaptado por Polo Planejamento.


Essa informação é o ponto principal de políticas públicas de reduções de velocidade, salvar vidas! Nem deveríamos questionar quando apresentado esse tipo de informação, mesmo assim, infelizmente, alguns não ficam satisfeitos em saber que uma medida como esta salva vidas.


Afinal, reduzir o limite de velocidade vai aumentar o meu tempo para chegar a um determinado local? Muito provavelmente não! Dando exemplo, o município de São Paulo, de acordo com a reportagem da Folha de São Paulo de 2018, mostrou que a velocidade média de deslocamento variou entre 22 km/h a 23 km/h, no período de 2008 a 2017.


Interessante notar que as políticas de redução de velocidade começaram a aparecer mais fortemente a partir de 2014 no município, antes disso as velocidades de deslocamento já eram baixas, como pode ser visto no gráfico seguinte. Para recordar, existiam vias com velocidades limites de até 70 km/h, como a Avenida Paulista que hoje tem velocidade limite de 50 km/h. Existe uma dificuldade, principalmente dos motoristas, de enxergar que a diminuição da velocidade limite pouco mudará o tempo de deslocamento.


Fonte: Folha de São Paulo, 2018 – Reportagem - Lentidão média piora nas principais vias da cidade de São Paulo . Adaptado por Polo Planejamento.


O grande volume de veículos, os semáforos e os padrões de extensões de quarteirões são fatores para que na maior parte dos deslocamentos a velocidade média não fique próxima da velocidade limite da via. Se você, como eu, deixa a localização do seu celular ligada, experimente visualizar sua linha do tempo do Google Maps (para quem utiliza Android). Você consegue visualizar os seus deslocamentos, o meio de transporte utilizado, a distância e o tempo. Possivelmente o tempo médio dos deslocamentos que realizam de carros resultem em uma velocidade média não tão diferentes como as mostradas no gráfico anterior.


Por isso, vamos apoiar cada vez mais medidas que visam salvar vidas no trânsito e mudar o comportamento para uma direção defensiva e que respeita a todos.

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